30.07.2010Os quatro agás

Chamava-se a enfermidade dos quatro agás. Porque a padeciam os heroinômanos, os homossexuais, os que necessitavam hemo-derivados para transfusões e, isto era o mais chocante, os haitianos.
Faz duas décadas que apareceram doentes com sintomas que não se enquadravam nos diagnósticos habituais. Como os sintomas se repetiam nesses grupos que começavam por agá, falou-se de uma síndrome que afetava a determinados grupos de risco, o que deu início a uma espécie de exclusão e de marginalização dessas pessoas. A obsessão chegou a falar de castigo divino por condutas pecaminosas das que se ocupavam nos púlpitos das igrejas.
Em Cuba se recluía os enfermos em hospitais especiais onde viviam enclausurados como em lazaretos e, a princípio, nem seus familiares, nem amigos podiam visitá-los. Num país socialista não se podia reconhecer que havia enfermos por causas de “vícios próprios de países capitalistas”.
No estado da Flórida se desencadearam campanhas de denúncia e de marginalização que recordaram o pior da época macartista.
Foi uma dura batalha conseguir que os meios de comunicação deixassem de falar de grupos de risco para falar de práticas de risco.
As práticas homossexuais sem a devida proteção, o uso de seringas compartidas por drogadictos contaminados ou as transfusões de sangue procedente de doadores portadores do vírus ajudaram a delimitar os perfis da doença e a lutar melhor contra a paranóia desatada. O que as pessoas não sabiam então é que entre os primeiros enfermos se encontravam bebês de mães imigrantes haitianas. Isto desconcertou os pesquisadores porque os bebês não se enquadravam nesses grupos de risco.
Com o tempo, soube-se que os homossexuais norte-americanos contaminados pela Aids faziam turismo sexual na ilha, mas o tabu nesse campo desconcertava os pesquisadores já que os haitianos não admitiam que entre eles pudessem ocorrer tais práticas. Mas ocorriam em troca de dinheiro e eles contaminaram a suas mulheres, algumas das quais emigraram aos EUA grávidas de crianças contaminadas.
Hoje em dia, felizmente, esse agá já foi descartado, assim como se conseguiu deter os casos de transmissão por sangue contaminado, já que os controles se tornaram mais severos, e entre os homossexuais dos países mais desenvolvidos foram levadas a cabo intensas campanhas que conseguiram deter a crescente expansão, porque souberam adotar meios de controle em suas práticas e colocaram-se nas mãos de médicos especialistas. Até logrou-se diminuir um pouco o terceiro grupo de heroinômanos que compartiam seringas, enquanto que a síndrome, já pandêmica, disparou-se de maneira brutal entre os heterossexuais e sobretudo entre as mulheres, que são o segmento da população mais desprotegido e castigado.
A Aids já afeta 40 milhões de pessoas. O informe da ONU que acaba de ser publicado, alerta que “se as coisas continuam como agora, estamos destinados a um desastre”.
Neste ano ocorreram 4,9 milhões de novos casos, 9% a mais do que em 2002; de cerca de 40 milhões de pessoas infectadas, 2,2 milhões têm menos de 15 anos; e tiveram lugar 3,1 milhões de falecimentos, 15% a mais que há dois anos.
Na África sub-sahariana encontram-se 60% do total de pessoas que vivem com HIV no mundo, uma proporção que já descendeu cerca de 90% se comparada há dez anos. Infelizmente, essa mudança estatística não se deve ao fato de que a doença esteja mais controlada, mas a que o crescimento em outras regiões seja ainda maior
Os alertas contínuos de organismos oficiais, sobretudo da UNAIDS (agência da ONU para combater essa doença), não conseguiram controlar a expansão da epidemia.
Logrou-se aumentar em 70% o número de mulheres grávidas que recebem tratamento, e que quase toda população da América Latina tenha acesso aos antivirais. No entanto, dos mais de quatro milhões de pessoas que necessitam antivirais, só 440 mil os recebem, a maioria nos países mais ricos.
A UNAIDS denuncia: “Se esse baixo nível de cobertura continua, nos próximos dois anos falecerão entre cinco e seis milhões de pessoas como conseqüência da Aids”. Enquanto se tenta descobrir uma vacina eficaz, e ante a falta de acesso aos medicamentos, só resta insistir em prevenção, e no aumento das campanhas de educação e de sensibilização – inteligentes e eficazes – nos centros escolares, assim como nos meios de comunicação por todo mundo.
O epidemiologista Dr. Luíz Lures afirmou que “o uso do preservativo é fundamental, e não se pode fazer concessões”. E perante a postura da Igreja Católica, que prima a abstinência ou a fidelidade, o especialista acrescentou: “Não sou especialista em moral, sou especialista em saúde pública. Não esperamos que a Igreja Católica promova o uso das camisinhas; esperamos que não fale contra estas, porque fazê-lo é falar contra a evidência científica”.

José Carlos García Fajardo
Diretor do CCS. Profesor Emerito da Universidade Complutense de Madrid
Traducido por Viviane Vaz
fajardoccs@solidarios.org.es