29.04.2011Ser você mesmo

A criatividade é uma rebelião para a libertação de tantos condicionamentos que nos aprisionam e impedem nosso vôo. A pessoa criadora não pode seguir um caminho trilhado. Disse Jeremy Iron que nunca fez o que devia, mas sim o que queria. É disso que se trata: atuar por convicção, o que inclui assumir riscos.
Uma pessoa criativa pode ver coisas que ninguém viu, ouvir coisas que os outros não percebem, iluminar o mundo cada manhã.
O homem novo se caracteriza pelos três “C’s”: consciência, compaixão e criatividade.. A consciência é conhecer-se e ser conseqüente; a compaixão é o sentimento de conviver com os demais; e a criatividade é a ação, mais do que a atividade rotineira ou imposta. Contra o excesso de lógica está a plenitude movida pelo sentimento e regida pela intuição, que é a grande perdedora no que costumam chamar desenvolvimento.
A ação criadora nasce do silêncio, de uma mente contemplativa que fez da vida uma celebração. É espontânea e sempre fecunda. É absurdo proibir o lazer como fonte de perigos. Inculcaram-nos a obsessão por uma atividade que se tornou compulsiva. Há gente que vive para trabalhar, para ganhar dinheiro, para cuidar da saúde. Não se pode viver para ninguém, família, amigos ou instituição alguma, vive-se com eles. Desde crianças nos preparam para produzir; produzimos durante alguns anos e nos deixam de lado quando deixamos de produzir.
Não se trata do que fazemos, mas de como o fazemos. Ninguém disse que tínhamos que renunciar aos desejos, mas que não nos apegássemos a eles. Desejar formar parte da vida, sem sentir falta de nada, é sabedoria.
A vida se torna uma celebração: pelos pássaros, pela água que corre, pelo céu azul, pelas nuvens, pelo sol e pela chuva. O sentido de viver é poder fazer o que se quer; isto é, querer o que se faz. A plenitude é o único fim da existência: não é ter, nem poder, nem acumular, nem mandar, nem as honras, nem as penas. É loucura sustentar que vale mais o que mais custa.
É possível atuar sem buscar mérito algum: a virtude mais eminente é fazer simplesmente o que temos que fazer. Não é preciso chegar a Itaca, nem a Jerusalém, nem a Tombuctu: basta saber que se está a caminho, até se dar conta de que cada um, todos e todo somos o caminho.

José Carlos García Fajardo
Profesor Emerito da Universidade Complutense de Madrid. Diretor do CCS.
fajardoccs@solidarios.org.es