03.06.2011A idade que temos

Estava o grande poeta inglês John Milton passando uns dias com Galileu Galilei em Florença. O autor de O paraíso perdido estava já quase cego e se valia de suas esplêndidas recordações.
Então, um dos discípulos do anfitrião florentino lhe perguntou: “Mestre, quantos anos você tem?”
O rosto do ancião se iluminou quando lhe respondeu: “Pois, como muito, uns sete ou dez… porque, não crerá você, jovem, que tenho os que já vivi”.
Esta é a atitude fundamental de cada ser humano, “somos o que não somos”, segundo Hegel. Viver o momento presente, o aqui e agora, é o conselho radical dos sábios nas mais importantes tradições da humanidade.
A iluminação nunca vem de fora, mas se acende como um despertar ao se dar conta da autêntica realidade. Amanhã não é uma realidade, mas sim uma hipótese sobre a qual seria insensato apostar nossa existência. Ontem já passou e, ou o assimilamos fazendo-o nosso, ou vagaremos como plantas desarraigadas a mercê de qualquer vento.
Cada etapa da vida tem suas próprias riquezas e é preciso ser coerente seguindo as sugestões da natureza. Manter o equilíbrio, buscar a harmonia e aspirar à serenidade que nos permita ser nós mesmos.
Essa é a chave da identidade, que nos faz ser o que somos e faz, por sua vez, que os outros nos reconheça como somos. É um processo, jamais uma conquista. É uma experiência que nos mostra os elementos distintos e até contraditórios com os quais está formada nossa personalidade. Se nos ocupamos em administrar nossas contradições, manteremos distanciada a esquizofrenia desintegradora que nos ameaça. As coisas são como são, como estão sendo, e o resto é besteira.
Daí, a importância de saborear o próprio conhecimento que nos leva ao respeito do outro. Não como objeto de nosso amor ou de nossa responsabilidade, mas como sujeito que sai ao encontro e nos interpela, para fazermos juntos o caminho.
Dar-se conta de que a todos compete o desfrutar dos bens comuns, abre-nos horizontes de plenitude, bondade e beleza. Porque são autênticos, e autentikós é o que tem autoridade sobre alguém e o promove.
Que perda de tempo é sentir saudade do passado em uma nostalgia estéril, enquanto o sentimento de ausência nos anima para seguir no caminho, compartindo e desfrutando cada momento de nossa existência. Sem nos atormentar por um futuro que não existe, mas o qual vamos fazendo. Como o tempo, e até como o espaço, que se define por seus conteúdos. Essa é a elegância verdadeira, que o vaso não seja mais que a flor.
E além do mais, se houver algo, acolheremos o raciocínio de Sócrates “bem me valeu ter seguido o caminho da virtude”. E, se não há nada, com maior razão me compensa viver com coerência e plenitude.
Conta Osho que o bom de ser ancião é que você já é muito velho para dar mau exemplo e pode começar a dar bons conselhos. O certo é que dentro de qualquer ancião há um jovem se perguntando o que aconteceu.
Falamos de jovens desconcertados e não de anciãos amargurados porque sentem que suas vidas não são o que poderiam ter sido. Sentem-se trapaceados. Ninguém lhes ensinou a amar a vida, a amar a si mesmos, a assumir o único sentido da existência: ser feliz.
E ser feliz é ser você mesmo, poder fazer as coisas porque temos vontade, não porque nos mandam ou para alcançar méritos para uma vida de além-túmulo. Isto é uma chantagem, adiar a felicidade para nos manter dominados e submissos. Fizeram da obediência uma virtude. Um bom povo, para aquele que manda, é um rebanho que pasta sem fazer ruído.
É urgente a rebelião de pessoas idosas que padecem sua solidão como ante-sala da morte. Nunca é tarde para madurar – sem confundir o envelhecimento, que é coisa do corpo, com a maturidade, que é crescer para dentro e saborear a vida. As rugas são hereditárias. Os pais as recebem dos filhos.
Descobrir-nos gotas num oceano de silêncio é transformar a existência numa celebração. É descobrir o universo no orvalho.
Não há maior provocação do que ser você mesmo. Atrever-se a ser, a discrepar, a gozar e a se realizar em harmonia com o universo. O sábio aceita a realidade impondo-lhe seu selo: para fazer o que queiramos temos que querer o que fazemos. Porque nada pode morrer, mas apenas mudar de forma. A existência nada sabe da velhice, sabe de frutificar. Já temos o que buscamos. É preciso despertar.
A maturidade significa que chegamos a casa. A maturidade é consciência; o envelhecimento, só desgaste. Ainda há tempo para trocar de trem.

José Carlos García Fajardo
Profesor Emerito da Universidade Complutense de Madrid. Diretor do CCS.
fajardoccs@solidarios.org.es