10.06.2011Correspondentes e mestres

Nas últimas décadas assistimos a um apaixonante fenômeno de transformação intercultural graças às novas tecnologias. Há alguns anos, os imigrantes europeus que chegavam à América sofriam uma nostalgia de suas raízes que não raras vezes levava ao desarraigamento emocional e cultural. A dificuldade nas comunicações postais era aumentada pela falta de domínio da escrita por parte de nossos emigrantes. As chamadas telefônicas eram caras e cheias de dificuldades.
Agora vemos os imigrantes latino-americanos e africanos com seus telefones celulares, comunicando-se entre eles em diferentes lugares da Espanha. Isto lhes permite manter suas tradições, assim como obter informação sobre centros e melhores condições laborais.
É comum ver como se reúnem nos fins-de-semana em parques e lugares de encontro para compartir comidas tradicionais, escutar suas músicas e intercambiar dados valiosos entre si.
Os que chegam, trazem notícias das famílias, são portadores de pedidos e de aromas conhecidos. Os que se vão, levam informação de primeira-mão sobre condições de trabalho, alojamento, saúde, educação e relações sociais que dificultam a proliferação de fantasias ou atividades criminosas de pessoas sem escrúpulos.
A maioria das mulheres imigrantes que chegavam de nações latino-americanas costumavam se empregar em serviços domésticos. Isto lhes garantia um lar e evitava gastos, o que lhes permitiam saldar a enorme dívida contraída para a passagem. Pouco a pouco, as internas foram alugando apartamentos que compartem com amigas e familiares, e saem para trabalhar por horas em diferentes empregos. Vivem em seus ambientes tradicionais, utilizam as melhorias que a sociedade de acolhida lhes brinda e dispõem de tempo livre que facilita o lazer, a aprendizagem de uma profissão ou rendas suplementares ao cobrar por horas.
Já nos acostumamos a ver a multidão de sul-americanos falando nos telefones públicos e gerenciando os populares locutórios em dias e horas de preço reduzido. O passo mais interessante é comprovar que há centros de informática onde aprendem, ao mesmo tempo que nós, a manejar e a participar de chats com seus familiares e amigos.
Este é um fenômeno sociológico de conseqüências formidáveis. Os imigrantes mantêm os laços familiares, afetivos e sociais com suas comunidades, o que dificulta o desarraigamento. Utilizam modernos sistemas para enviar suas economias sem passar por instituições bancárias, nem por outros intermediários. O dinheiro já não vai daqui para lá confiado a viajantes e com riscos, senão que todos manejam maravilhosamente as técnicas do clearing e das compensações em conta. Por fim, aproveitam-se das vantagens da globalização que, até agora, apenas beneficiavam os grandes grupos financeiros.
Produz-se um fato de alcances incalculáveis: os imigrantes se converteram nos autênticos correspondentes dos países europeus perante suas comunidades de origem. Suas mensagens têm mais credibilidade e utilizam uma linguagem mais autêntica que a dos meios de comunicação. Em muitos lugares da América Latina há comunidades melhor informadas sobre a realidade européia que em muitos povoados da Espanha.
Este é um fenômeno que os governos deverão facilitar como o melhor meio de integração para fomentar o mútuo enriquecimento entre pessoas de etnias e culturas tão diversas. Então, surgirá uma cultura da responsabilidade e do reconhecimento, ao invés da míope atitude de desconfiança e de rechaço que ainda existe entre pessoas que perderam o sentido da história.
Há outro fato que devemos seguir com atenção. Durante décadas, as populações latino-americanas viveram fascinadas pelo sistema de vida norte-americano que lhes chegava através dos produtos de Hollywood, sobretudo, do cinema. Mais tarde, foram os seriados televisivos que logo caíram na órbita de Miami, Venezuela, México ou Brasil e que ofereciam um mundo como espetáculo mas, na realidade, inalcançável. Isto ocasionava uma enorme ansiedade por ser irrealizável e que contrastava com a realidade diária.
O autêntico processo de mudança está acontecendo entre os imigrantes que chegam a Europa e podem contrastar a realidade com a fantasia oferecida nos meios de comunicação de massas. Podem continuar fascinando-os, como tantos espanhóis, mas não correm o risco de confundi-los com a realidade de que, quem tem um posto de trabalho e aceita as regras do jogo, torna-se responsável por seu destino. E tem direito a desfrutar dos mesmos privilégios que os demais cidadãos.
Isto é comprovado diariamente pelas famílias de imigrantes que têm filhos que já vão às escolas em seus países de acolhida. No espaço de uma geração, os filhos alcançam a integração sonhada por seus pais. Seus sinais de identidade, agora são enriquecidos pelas induvidosas vantagens da mestiçagem cultural.
O mestiço afasta os perigos de xenofobia ou de racismo. Quem não gostaria de ser vizinho de Zidane, de Roberto Carlos, Jordan, Denzel Washington, Hale Berry, Whitney Houston, ou de qualquer outro ícone social? Foi comprovado que não é questão de cor da pele, de cachos nos cabelos ou da etnia originária, mas da educação, do nível social e da igualdade de oportunidades. Nem a comida, nem o sotaque, nem a roupa, nem o lugar para onde se orientam suas práticas religiosas influem tanto como a educação compartida, como os jogos, o lazer e os sonhos de um mundo melhor, mais justo e solidário.
Outro aspecto fundamental e valioso é ver a grande proliferação de pessoas idosas que se encontra em praças e jardins, tomando sol ou dando um passeio, acompanhada por um solícito amigo boliviano ou do Equador, peruano ou de São Domingos, que a assiste. Fala com ele, sorri para ele e lhe oferece seu braço de apoio, como os filhos e os netos costumavam fazer com seus idosos. Antes da onda consumista que confunde valor com preço e não encontra na atenção a seus avós a produtividade imposta. São empregados que lhes ajudam a recuperar a vontade de viver, que atuam como familiares, com confiança e respeito, e acolhem os autênticos netos quando chegam de visita, como verdadeiros membros da família.
Estas pessoas, não só informam a suas gentes e lhes transmitem nossa situação que ali assombra, mas também nos ajudam a recuperar estilos e formas, valores e uma ternura que já pareciam esquecidos.

José Carlos García Fajardo
Profesor Emerito da Universidade Complutense de Madrid. Diretor do CCS
fajardoccs@solidarios.org.es