01.07.2011Perigos de uma sociedade dual

Ressalta Juan Luis Cebrián, antigo diretor de “El País”, que estamos a ponto de enfrentar o enorme problema de uma sociedade dual, onde quase a metade da população vive no limite da subsistência. Nas suas conversas com o jornalista Juan Arias em “Um olhar diferente”, faz algumas afirmações de estremecer em pleno desenvolvimento da revolução digital. Essa metade da humanidade “não são cidadãos de direito, nunca serão classe média, nunca terão educação nem recursos materiais mínimos para viver com dignidade. Trata-se de uma sociedade onde conviverão a escravidão e a pobreza absoluta com a ciência e a investigação mais avançada, com a comunicação universal em tempo real”. Isto criará maiores possibilidades de violência, a que chamarão terrorismo. A transformação da economia financeira nos últimos vinte anos está nos levando a uma interdependência de decisões de algumas pessoas com respeito às condições de vida, à riqueza ou à pobreza de milhões de pessoas no mundo. Isto alarma os observadores e analistas porque essas decisões nem sempre são tomadas por governos representativos, mas sim por agentes do mercado que escapam dos tradicionais controles políticos – que acobertam uma pretensa superioridade do sistema democrático que os poderes ocidentais pretendem impor ao resto dos países. Sem lhes perguntar a opinião e levar em conta suas tradições e suas culturas que, no mínimo, são tão respeitáveis como nosso eurocentrismo, e o american way of life, nascidos de uma civilização judaico-cristã apoiada em sistemas culturais greco-romanos. Que loucura fingir uma superioridade cultural pelo fato de que tenha sido dominante nos últimos quatro séculos! Já estamos começando a pagar por suas conseqüências, pois a imigração, entre outros fenômenos inevitáveis, traz-nos as vozes ricas e multiformes do Islã, das civilizações orientais e, ainda mais profunda, a da África, cheia de promessas que os colonizadores europeus depreciaram por ignorância, enquanto se aprontavam para pôr em marcha seu programa dos três “cês”: Cristianizar, Civilizar e abri-los ao Comércio. Essa sociedade dual se caracteriza pelos poderes públicos que governam sobretudo para certos setores da população, como podemos comprovar em tantos países da América Latina, da Ásia ou da África, e cada vez mais nos Estados Unidos. A globalização não só controla a economia, como também o crime organizado, a prostituição, o narcotráfico, o contrabando de armas e até o terrorismo. O perigo se torna ainda maior nas esferas das comunicações e na revolução digital. Brincamos de aprendizes de bruxos sem poder controlar um presente que não sabemos aonde vai nos levar, porque algo está mudando de modo muito acelerado, sem nos darmos conta disto totalmente. Os autores do livro se perguntam se não precisaríamos de um governo universal com poderes para decidir certas questões que afetam a humanidade inteira. E Cebrián responde que já existe um governo mundial que não é necessariamente um governo democrático nem representativo. A economia já está controlada mundialmente, mas não pelos governos nacionais nem sequer pelas instituições que surgiram em Bretton Woods, já que as medidas da Reserva ou do Banco Central estão motivadas pelo comportamento de agentes econômicos que escapam do controle dos governos. Agora os governos nacionais não podem definir a quantidade de moeda que se emite porque não podem controlar os agentes que operam no sistema de pagamentos internacionais. O sistema é cada vez mais global e mais independente dos poderes políticos eleitos pelos cidadãos. “A autoridade mundial existe na economia, existe na informática”. Estão sendo gerados grandes monopólios transnacionais causados mais pelas exigências das novas tecnologias do que pela mera cobiça de seus donos. Uma vez mais, a criatura se levanta contra seu criador, como no mito de Pigmaleão. Porque podemos mais do que sabemos e alguns poucos têm infinitamente mais do que podem administrar sem que danem a milhões de seres humanos reduzidos a objetos de mercado, a força de trabalho ou, simplesmente, ignorados pelo sistema. Um governo mundial só seria imaginável se governasse coisas muito concretas e é muito difícil imaginar como poderia ser eleito. Além disso, um governo semelhante que pretendesse ser eficaz necessitaria de uma força coativa hoje inimaginável. Enquanto isso, mais da metade da humanidade não pede mais que poder comer, receber educação e cuidados sanitários elementares. Não só se trata da ameaça do novo poder hegemônico que pretende controlar as fontes de energia e os lugares geopoliticamente estratégicos. Trata-se da sobrevivência da espécie humana, à qual tem que enfrentar as instituições supranacionais capazes de imaginar e de organizar relações sociais mais justas e solidárias a escala universal. O mundo já se fez abarcável e nós, seus habitantes, sentimo-nos responsáveis. Os modelos que nos regeram até agora e as relações de poder que originaram têm que ser substituídas, porque uma maré humana pode se levantar incontrolada e cega ao não poder suportar mais as condições de vida degradantes, indignas e, o que é pior, sem sentido.

José Carlos García Fajardo
Profesor Emerito da Universidade Complutense de Madrid. Diretor do CCS
fajardoccs@solidarios.org.es